A campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) decidiu que o candidato à reeleição não participará do debate presidencial marcado para domingo, 23 de agosto, promovido por uma emissora de televisão aberta. A justificativa apresentada pela equipe é a de que o formato não oferece condições equilibradas para que o petista responda aos ataques dos demais concorrentes. Uma nova reunião sobre o assunto está prevista para esta semana, mas integrantes da própria campanha consideram remota a possibilidade de alterar a posição.
O argumento que aparece em toda a cobertura é a lista de convidados. A organização do debate chamou candidatos que, segundo a campanha petista, não precisariam ser convidados pelos critérios da legislação eleitoral, entre eles Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão). A regra assegura presença nos debates aos candidatos de partidos com pelo menos cinco parlamentares no Congresso Nacional; concorrentes de siglas sem essa bancada só entram se forem convidados pelos organizadores. Um integrante da campanha afirmou que, se houvesse a retirada dos dois nomes da lista, a chance de Lula rever a decisão seria maior.
A ausência tende a produzir efeito em cadeia. Integrantes da campanha de Flávio Bolsonaro (PL), apontado como o principal adversário do presidente, dizem que a orientação atual é comparecer apenas aos debates em que Lula estiver presente. O cálculo é duplo: sem o petista, o senador viraria o alvo preferencial dos demais candidatos, desgastando-se com concorrentes que ele pretende ter ao lado num eventual segundo turno; e um debate com apenas um dos dois favoritos funcionaria como palanque para quem comparecesse. A avaliação predominante nesse entorno é de que o embate direto só deve ocorrer no segundo turno. A tendência, por ora, é que Lula participe somente do último debate antes do primeiro turno, ainda assim sem confirmação, mantendo a agenda de entrevistas a veículos de imprensa, podcasts e sabatinas.
Os relatos convergem em quase tudo. A cobertura de centro tratou o caso como bastidor de campanha e detalhou as razões das duas equipes com o mesmo distanciamento, registrando que a decisão ainda passaria por nova reunião. Veículos de direita reproduziram a mesma apuração e acrescentaram a régua legal dos cinco parlamentares, o que desloca a discussão do gosto da campanha para o critério objetivo de quem tem vaga garantida e quem depende de convite. A divergência de ênfase aparece no tom: enquanto o registro de centro se concentra no cálculo eleitoral das duas campanhas, a cobertura à direita destaca o pedido implícito de desconvite a dois adversários e a consequência prática de o eleitor não ver o presidente no primeiro confronto televisionado. Veículos de esquerda tiveram presença marginal nesta cobertura; a leitura esperada desse campo enfatiza o desequilíbrio de um formato em que o candidato à reeleição enfrenta vários concorrentes sem tempo real de resposta, e a manutenção do contato com o eleitor por entrevistas e sabatinas.
O que ainda não se sabe é decisivo. Não há posição pública dos organizadores do debate sobre os critérios usados para montar a lista de convidados, nem manifestação de Romeu Zema e Renan Santos sobre a contestação de suas presenças. Também não está definido se a nova reunião da campanha petista pode reverter a decisão, se Flávio Bolsonaro confirmará a ausência e se o presidente irá de fato ao último debate antes do primeiro turno. Nenhuma das matérias informa se há prazo ou regra que obrigue os organizadores a responder ao questionamento sobre a lista.