A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro teve sua candidatura ao Senado pelo Distrito Federal oficializada na convenção regional do PL, realizada em Brasília no domingo (2), sem que ela estivesse presente. Internada no sábado (1º) por causa de crises persistentes de enxaqueca, passou por um procedimento de bloqueio anestésico dos nervos cranianos e recebeu alta ainda no domingo, mas não chegou a tempo do evento. Coube ao irmão Diego Torres, indicado como seu primeiro suplente, ler no palco a carta em que ela aceita a disputa. 'Sou pré-candidata ao Senado Federal e vou ajudar a edificar a nossa nação, porque governar é cuidar', dizia o texto. Na terça-feira (4), a ex-primeira-dama confirmou pessoalmente a decisão em suas redes sociais.
Toda a cobertura converge nos fatos centrais. A convenção confirmou duas candidatas ao Senado pelo Distrito Federal, a ex-primeira-dama e a deputada federal Bia Kicis, e o apoio à reeleição da governadora Celina Leão. O senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro participou do ato, desejou melhoras à madrasta, afirmou que precisará das duas no Congresso e defendeu uma anistia aos condenados pelos atos de 8 de Janeiro, além de cobrar que ministros do Supremo Tribunal Federal voltem a respeitar a Constituição. O encontro presencial entre madrasta e enteado, esperado como o primeiro desde a briga pública de junho e o pedido de desculpas de julho, não aconteceu. Também há consenso de que a vaga foi viabilizada pela desistência de um senador do próprio partido, que migrou para a disputa de deputado federal.
As ênfases divergem. Veículos de esquerda destacaram o desenho familiar do projeto eleitoral, com um irmão como suplente e outro concorrendo a deputado distrital, e lembraram que o ex-presidente cumpre prisão domiciliar por tentativa de golpe de Estado enquanto é apresentado como quem decidiu a candidatura da mulher. A cobertura de centro relatou sobretudo a logística política e a apuração de bastidores: a articulação da reconciliação pela cúpula partidária, a influência da ex-primeira-dama na montagem de chapas em outros estados e a avaliação de aliados de que a campanha dela ficará concentrada em Brasília, reduzindo sua presença na disputa presidencial. Veículos de direita enfatizaram a recomposição da unidade do campo conservador, a decisão descrita pela candidata como missão confiada pelo marido e a promessa de um Senado forte como contrapeso institucional ao Judiciário.
O efeito prático dessa divisão de leitura recai sobre a campanha presidencial. Aliados avaliam que a candidatura ao Senado limita a disponibilidade da ex-primeira-dama para viajar pelo país em apoio ao enteado, justamente quando o desempenho dele entre as eleitoras é a maior preocupação de sua equipe. Isso aumentou o peso da escolha do vice, com tentativas frustradas de atrair nomes femininos de outros partidos e pressão interna por candidatos homens. Na convenção, a linguagem de campanha foi de confronto, com a governadora afirmando que a eleição terá apenas o lado do bem e o lado do mal, fala reproduzida sem contraponto por parte da cobertura.
Algumas questões seguem em aberto. Não há data definida para a primeira agenda pública da candidata nem informação sobre a evolução do quadro de saúde que motivou a internação. Também não se sabe quando ocorrerá o encontro presencial entre ela e o presidenciável, prometido desde a troca de vídeos de reconciliação, nem em que medida ela participará efetivamente da campanha nacional. Por fim, permanece indefinido o nome do vice na chapa presidencial e se o partido conseguirá alguma coligação, depois de sucessivas recusas de siglas que optaram pela neutralidade.