O deputado federal Nikolas Ferreira, do Partido Liberal de Minas Gerais, passou os últimos meses montando uma operação eleitoral própria para 2026. Enquanto a cúpula do partido administrava a disputa entre Michelle Bolsonaro e o senador Flávio Bolsonaro e lidava com a repercussão do chamado caso Dark Horse, o parlamentar recrutava pré-candidatos estado por estado. A meta declarada é eleger ao menos dez deputados federais e nove deputados estaduais em Minas Gerais, formando o que ele descreve como um grupo de pessoas de confiança, alinhado aos seus princípios, na Câmara dos Deputados e na Assembleia Legislativa mineira.
A cobertura de centro apurou os detalhes da operação com entrevista ao próprio deputado. Ele foi o parlamentar mais votado do país em 2022, com 1,47 milhão de votos, e hoje tem 30 anos. A Constituição exige idade mínima de 35 anos para disputar o Senado e a Presidência da República, o que só o habilita a partir de 2034. Sem cargo maior à vista, a demonstração de força passa a ser a capacidade de eleger outras pessoas. Os escolhidos vêm principalmente do Partido Liberal e do Novo, com nomes também no Republicanos e no Progressistas, e foram recrutados sobretudo pelas redes sociais entre vereadores jovens e criadores de conteúdo.
Os dois lados que cobriram o caso convergem nos fatos operacionais. Os pré-candidatos receberam material de campanha padronizado, incluindo santinhos, e gravaram vídeos com o deputado em encontros realizados em Belo Horizonte e Brasília. Os conteúdos começaram a circular em meados de julho, em dois formatos: gravações com fundo escuro, marca das publicações do parlamentar sobre o Pix e sobre o escândalo do Instituto Nacional do Seguro Social, e vídeos simples feitos com câmera frontal. Os roteiros são praticamente idênticos, com ajustes para citar cada estado. Entre os nomes estão o influenciador Pedro Pôncio, ex-integrante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra que hoje defende punições mais duras para ocupações de terra, pré-candidato pelo Novo em São Paulo, e Júlia de Castro, pré-candidata pelo Partido Liberal no Rio de Janeiro. Nos estados do Sul, os escolhidos são os vereadores Hiago Stock, Guilherme Kilter e Beatriz Borba, todos do Novo. O deputado afirma que cada participante pagou a própria passagem e que tudo foi feito com recursos próprios, por se tratar de pré-campanha.
As divergências aparecem no enquadramento. Veículos de esquerda deram peso às pautas do grupo recrutado, que reúne a proibição do aborto, a oposição ao feminismo e o combate ao que os pré-candidatos chamam de doutrinação universitária e de ideologia de gênero, e marcaram distância desses termos com aspas ao longo do texto. A cobertura de centro tratou a articulação sobretudo como cálculo eleitoral, lembrando que em 2022 a votação recorde do deputado ajudou a eleger nove estaduais pelo coeficiente eleitoral, embora ele apoiasse diretamente apenas Bruno Engler, eleito com 637.412 votos. Daí a mudança de método, que inclui o veto à filiação do ex-deputado Eduardo Cunha ao Partido Liberal mineiro e o atrito com o presidente da legenda, Valdemar Costa Neto, sobre o controle da chapa proporcional no estado. Veículos de direita não haviam publicado cobertura própria do caso até o momento desta análise, de modo que a leitura favorável ao movimento aparece apenas nas falas dos próprios envolvidos, como a do vereador Guilherme Kilter, para quem o partido nunca foi barreira nessas escolhas.
O que ainda não se sabe é o essencial. Nenhuma das duas coberturas traz a posição da direção nacional do Partido Liberal sobre a formação de uma bancada paralela, nem resposta de Valdemar Costa Neto ao episódio da chapa mineira. Também não há apuração independente sobre o custo real da produção dos vídeos e dos materiais padronizados, nem avaliação da Justiça Eleitoral sobre os limites da propaganda em período de pré-campanha. Por fim, não há qualquer projeção verificável de quantas dessas candidaturas têm viabilidade eleitoral, nem lista completa dos nomes apoiados, que o parlamentar promete divulgar em um site nas próximas semanas.