O Congresso Nacional entrou em ritmo eleitoral antes mesmo do início oficial da campanha de 2026. Os presidentes da Câmara, Hugo Motta, e do Senado, Davi Alcolumbre, montaram para o segundo semestre um calendário de esforços concentrados: as votações ficam espremidas em poucas semanas de agosto e, nos demais períodos, deputados e senadores ficam liberados para atuar em seus estados e apoiar candidaturas. Antes disso, o fim do recesso parlamentar foi prorrogado por causa do prazo das convenções partidárias, e o retorno aos trabalhos só ocorre na segunda semana do mês.
Toda a cobertura converge no desenho geral. A estratégia das Mesas Diretoras é aprovar em blocos os projetos que já contam com acordo político ou com prazo legal, como medidas provisórias e matérias orçamentárias, e empurrar para depois das urnas os temas de maior custo político. Na lista de pautas viáveis aparecem a ampliação do limite de faturamento do Microempreendedor Individual, parte da regulamentação dos trabalhadores por aplicativo e a renegociação de dívidas de produtores rurais do Rio Grande do Sul. Na lista das travadas estão a PEC que acaba com a escala 6x1 e a PEC da Segurança Pública, ambas dependentes de um entendimento amplo entre governo, oposição e líderes partidários.
A cobertura de centro relatou o fato de forma seca e acrescentou dois pontos ausentes das demais: a prorrogação do recesso ocorreu por causa do calendário das convenções, e a criminalização da misoginia figura como prioridade da presidência da Câmara, enfrentando resistência de grupos conservadores e religiosos. Registrou ainda que a PEC do fim da escala 6x1, bandeira do governo, está parada na presidência do Senado.
Veículos de direita enfatizaram o custo dessa dinâmica para o país. Ouviram parlamentares de partidos de centro-direita e direita e um especialista em fiscalização parlamentar, e organizaram a narrativa em torno do chamado recesso branco: o Congresso não fecha formalmente, mas o plenário esvazia e as reformas estruturais param. O exemplo mais citado é a regulamentação do Imposto Seletivo, etapa da reforma tributária que tem prazo constitucional e mesmo assim perde espaço porque desagrada setores econômicos. Nessa leitura, a prioridade número um do parlamentar em ano eleitoral é a própria reeleição, e o foco migra para medidas de apelo popular e interesse regional. A mesma cobertura abriu uma segunda frente, ao mostrar que o Tribunal de Contas da União classificou como risco intolerável ao erário as falhas no controle das emendas Pix e que o ministro do Supremo Tribunal Federal Flávio Dino determinou que Presidência da República, Câmara e Senado apresentem uma matriz de responsabilidades sobre a execução dessas verbas, incluindo a eventual responsabilização dos próprios parlamentares que indicam os beneficiários.
Não houve, até o momento, cobertura de veículos de esquerda sobre este calendário. O ângulo previsível desse lado, a partir dos mesmos fatos, seria o da conta paga pelos trabalhadores: são justamente as pautas de proteção social que ficam para depois do voto, da PEC da escala 6x1 à parte mais dura da regulamentação dos aplicativos, enquanto avançam as medidas de baixa resistência e as emendas que abastecem bases eleitorais.
Há divergência factual entre as coberturas sobre as datas exatas das janelas de votação, o que sugere que o calendário ainda estava em ajuste quando os textos foram publicados. Também não se sabe se as Mesas manterão o formato caso a pressão do STF e do TCU sobre as emendas cresça, qual será a resposta formal da Câmara, do Senado e da Presidência à determinação do ministro do Supremo, nem se alguma das pautas classificadas como espinhosas será destravada por acordo antes de outubro. O teor completo da auditoria do TCU e o efeito prático das novas exigências sobre a execução das emendas neste ciclo eleitoral seguem sem detalhamento.