O Partido Liberal vive sua mais aguda crise interna às vésperas da pré-campanha presidencial de 2026. No centro do impasse estão a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e o enteado, o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência pelo PL. O estopim foi um vídeo divulgado por Michelle, no qual ela acusa Flávio de tê-la destratado em uma conversa telefônica e de costurar acordos eleitorais à revelia dos princípios do bolsonarismo. A reação do partido foi imediata: o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, antecipou o retorno dos Estados Unidos para tentar mediar o conflito e evitar que ele prejudicasse a campanha.
A origem da disputa está no Ceará. A cobertura de centro relatou, com detalhes, que o atrito nasceu da definição da chapa ao Senado no estado: Michelle defende a candidatura da deputada Priscila Costa, ligada ao PL Mulher, enquanto Flávio teria respaldado o deputado estadual Alcides Fernandes, pai do presidente estadual da sigla, André Fernandes. A esse impasse somou-se a aproximação do PL cearense com o ex-ministro Ciro Gomes, pré-candidato ao governo do estado, movimento ao qual Michelle se opõe por considerar que lideranças tradicionais da direita local foram deixadas de lado. Ciro, por sua vez, declarou que não apoiará Flávio na disputa presidencial, ampliando os ruídos da aliança.
Diante da repercussão, Flávio adotou tom conciliador. Pediu desculpas caso tenha ofendido a madrasta, declarou que a briga é 'página virada' e passou a defender publicamente uma 'pauta das mulheres', afirmando que a autonomia financeira feminina é tema de economia, não de ideologia. Veículos de direita enfatizaram a urgência da unidade partidária: para essa cobertura, Valdemar agiu com rapidez para preservar a legenda e manter Flávio como o candidato escolhido por Jair Bolsonaro, e a reconciliação seria imperativa para derrotar a esquerda em outubro. Esses veículos destacaram ainda a agenda internacional do senador, que se reuniu com o presidente argentino Javier Milei em Buenos Aires, elogiou o ajuste fiscal e a redução do Estado promovidos na Argentina e projetou o Brasil como a próxima peça da chamada 'onda azul' conservadora na América Latina.
Veículos de esquerda, em contraste, leram o episódio como uma janela para as entranhas do bolsonarismo. Para essa cobertura, o caso escancara o tratamento dispensado às mulheres dentro do movimento: Michelle relatou humilhação, desrespeito e ataques coordenados de influenciadores ligados aos filhos de Bolsonaro, e o discurso 'pró-mulheres' de Flávio surgiria como controle de danos, não como compromisso genuíno. Esse enquadramento também sublinha que a busca de Flávio por avalistas externos, como Milei e, antes, Donald Trump, e a aliança pragmática com Ciro Gomes revelariam que a retórica de 'valores inegociáveis' cede ao cálculo eleitoral.
A cobertura de centro, mais factual, registrou que as versões dentro do próprio PL divergem. Na cúpula do partido, a leitura predominante é que Michelle não seria candidata à Presidência porque essa não é a preferência de Jair Bolsonaro, e Valdemar reafirmou Flávio como candidato. Já no entorno da campanha, há quem trabalhe com a hipótese de Michelle assumir a cabeça de chapa caso Flávio seja inviabilizado por novas revelações, como as do chamado Caso Master. Cientistas políticos ouvidos pela imprensa avaliam que a crise pode comprometer a estratégia de Flávio de moderar a imagem e ampliar apoio entre mulheres e eleitores independentes.
O que ainda não se sabe é se a mediação de Valdemar surtirá efeito. Até o fechamento das reportagens, Michelle permanecia irredutível e ainda não havia sido ouvida no processo de pacificação. Também não há comprovação pública de que Jair Bolsonaro tenha sido contrário à divulgação do vídeo, como sustentam aliados dos filhos, nem definição sobre os palanques de Flávio em estados-chave como Minas Gerais e Santa Catarina. O desfecho da disputa cearense e o papel reservado a Michelle na pré-campanha seguem em aberto.