A dois meses da eleição presidencial de outubro de 2026, a sequência de pesquisas divulgadas entre 30 de julho e 5 de agosto consolidou um retrato incômodo para os dois favoritos: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro lideram ao mesmo tempo as intenções de voto e os índices de rejeição, em patamares praticamente idênticos.
Os números convergem entre institutos diferentes. Um levantamento divulgado em 31 de julho, com 2.100 entrevistados e margem de erro de 2,15 pontos percentuais, apontou 52,3% de rejeição ao senador e 51,5% ao presidente. Outro, com 2.400 entrevistas encerradas em 29 de julho, registrou 49% para cada um. Uma terceira pesquisa, feita entre 31 de julho e 2 de agosto com 2.002 eleitores, repetiu os 49% para ambos. A rodada mais recente, com 2.004 entrevistados entre 31 de julho e 3 de agosto, mediu 54% de rejeição ao senador e 52% ao presidente. Um quinto instituto, ouvindo 1.500 pessoas no mesmo período, chegou a 48% e 47,4%. Em todos, a distância entre os dois nomes cabe dentro da margem de erro.
Na intenção de voto, o presidente segue à frente. Num cenário nacional de primeiro turno ele aparece com 41% contra 37% do senador; em outro, com 39% contra 30%. No segundo turno, as simulações vão de empate técnico, com 46% a 45%, a uma vantagem de cinco pontos, com 44% a 39%. Essa última pesquisa registrou encurtamento da diferença, que era de oito pontos em julho. O mapa estadual é o que mais dispersa: o senador lidera com folga no Acre, com 51% a 26,6%, e no Paraná, onde chega a 42% no primeiro turno, além de ter ligeira vantagem em São Paulo; o presidente domina a Bahia, com 52% a 18%, e o Ceará, enquanto Minas Gerais e Rio de Janeiro permanecem em empate técnico.
A cobertura de centro tratou o conjunto como corrida eleitoral e priorizou o rigor metodológico: amostra, período de campo, margem de erro, registro no Tribunal Superior Eleitoral, custo e contratante de cada levantamento. Nessa chave, a leitura dominante é a de um eleitorado dividido, com aprovação e desaprovação do governo federal separadas por um ponto percentual, e com um terceiro nome, o ex-governador de Goiás, tentando ocupar o espaço aberto pela rejeição dupla ao acusar os dois líderes de brincar de esconde-esconde e fugir dos debates já adiados.
Veículos de direita enfatizaram o desgaste do governo e o reagrupamento conservador. Destacaram a desaprovação de até 49%, a percepção de piora econômica por 43% dos entrevistados, a queda no efeito marginal dos programas de renegociação de dívidas e a série de episódios envolvendo o entorno presidencial, entre eles a abertura de inquérito da Polícia Federal sobre o filho do presidente. Também deram relevo à explicação de que a recuperação do senador vem do realinhamento do eleitorado antipetista após a reconciliação pública com a ex-primeira-dama e a reação à decisão do Supremo Tribunal Federal que proibiu suas visitas ao pai, além de criticar a condução da política externa e os atritos com Estados Unidos, Argentina e Paraguai.
Veículos de esquerda deslocaram o foco para a qualidade do debate público. O ponto explorado foi o achado de que 12,5% dos eleitores dizem acreditar que o presidente morreu e foi substituído por um sósia, com outros 28,5% sem opinião, número apresentado como medida do alcance de teorias conspiratórias e do peso do etarismo na formação da rejeição. Nessa leitura, a rejeição elevada é efeito de desinformação organizada em redes digitais, e não avaliação de políticas públicas. A denúncia do presidente de que um governo estrangeiro tentará interferir na eleição foi tratada como questão de soberania.
O que ainda não se sabe é decisivo. Não há confirmação sobre a participação dos dois primeiros colocados nos debates presidenciais, nem calendário definitivo depois do adiamento. Não está fechada a composição das chapas, incluindo o nome da vice do senador e o palanque em Minas Gerais. Também não há medição sobre como uma rejeição de metade do eleitorado se converte em comparecimento e voto em outubro, nem avaliação independente do impacto do tarifaço sobre emprego e exportações nos Estados mais atingidos.