O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, autorizou na quinta-feira, 30 de julho de 2026, a abertura de um inquérito da Polícia Federal contra Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho mais velho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A apuração mira suspeitas de tráfico de influência e corrupção no processo de autorização para a comercialização de cannabis medicinal, com ramificações no Ministério da Saúde e no gabinete da Presidência. Poucas horas depois, o ex-governador de Goiás e candidato à Presidência Ronaldo Caiado, do PSD, converteu o caso em munição eleitoral e escreveu nas redes sociais que o Brasil vive 'uma monarquia disfarçada de república, onde o rei protege o príncipe'.
A frase teve dois alvos. O explícito foi o PT, descrito por Caiado como 'uma novela política em cartaz há décadas, sempre com o mesmo enredo, sempre com os mesmos personagens'. O implícito foi a família Bolsonaro: ao dizer que falava 'de Lula e Lulinha, mas pode ser interpretado como outro pai que protege outro filho', o presidenciável alcançou o senador Flávio Bolsonaro, do PL, seu concorrente no campo da direita, sem nomeá-lo. Caiado vinha sustentando que teria mais chance do que Flávio em um eventual segundo turno contra o atual presidente.
Os fatos centrais aparecem de forma convergente em toda a cobertura. O pedido da Polícia Federal foi protocolado em 24 de julho e distribuído a Mendonça, que já relata o inquérito sobre desvios em descontos de aposentados do INSS. A suspeita é de que Lulinha teria atuado ao lado da empresária Roberta Luchsinger e do lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, para abrir portas no Ministério da Saúde em favor da empresa World Cannabis. O contrato de venda de medicamentos à base de canabidiol chegou a ser negociado em 2024 e 2025, mas não foi assinado. A defesa nega qualquer ilegalidade e classificou a instauração do procedimento como 'pesca probatória'. Em entrevista a um podcast, o presidente afirmou que não usará o cargo para proteger o filho e que ele 'será tratado como filho de qualquer pessoa'.
A cobertura de centro concentrou-se no trâmite processual: a redistribuição pedida pela corporação, a concordância da Procuradoria-Geral da República, o retorno do caso às mãos de Mendonça e a resposta pública do presidente. Veículos de direita deram maior espaço à ofensiva da oposição, reunindo as manifestações do senador Flávio Bolsonaro, do deputado Nikolas Ferreira, do senador Rogério Marinho e do ex-governador Romeu Zema, do Novo, que ampliou o episódio para uma crítica geral à classe política. Nesse recorte, a negativa da defesa e a fala do presidente aparecem de forma reduzida ou simplesmente ausente. Veículos de esquerda não repercutiram o episódio no conjunto analisado, o que caracteriza o ponto cego desta cobertura: os argumentos habitualmente associados a esse campo, como a presunção de inocência, a suspeita de uso eleitoral do inquérito e a comparação com o tratamento dado a apurações que envolvem a família Bolsonaro, só chegam ao leitor pela voz da defesa e de governistas citados de passagem.
O caso não parou aí. Ainda na mesma semana, Mendonça autorizou um segundo inquérito, voltado a supostas irregularidades envolvendo a Dataprev, empresa pública de tecnologia da Previdência Social, e a Polícia Federal pediu ao Supremo a abertura de um terceiro, sobre suposto tráfico de influência em favor de empresas parceiras do empresário. Esse último requerimento aguardava distribuição a um relator, e a informação disponível é de que não coube a Mendonça. No centro da segunda apuração está uma empresa de tecnologia com contratos em vigência de aproximadamente 55,7 milhões de reais com o governo federal.
O que ainda não se sabe é decisivo. Não há denúncia nem acusação formal contra Lulinha, que mora na Espanha, e nenhuma das investigações apresentou até agora prova pública de pagamento em troca de acesso ao governo. Seguem em aberto quem relatará o terceiro inquérito, se as provas produzidas na Operação Sem Desconto serão compartilhadas com as novas apurações e qual o desdobramento da informação, atribuída a fonte não identificada, de que a cúpula da Polícia Federal teria tentado retirar o caso das mãos de Mendonça. Nada disso impede que o episódio já produza efeito na corrida presidencial de 2026.