A reta que antecede as eleições de outubro de 2026 ganhou dois capítulos que dialogam entre si: a mudança de humor do mercado financeiro em relação a Luiz Inácio Lula da Silva e o avanço de uma investigação da Polícia Federal contra o senador Flávio Bolsonaro. Juntos, os episódios desenham o momento atual da disputa presidencial e a pressão institucional sobre o campo bolsonarista.
O primeiro movimento foi relatado pela coluna de Lauro Jardim, no jornal O Globo, e repercutido por veículos de esquerda. Segundo a coluna, executivos do topo da Faria Lima, o centro financeiro de São Paulo, passaram a tratar Lula como favorito a vencer a eleição. A leitura combina pesquisas recentes e o que a coluna chamou de 'mais recente tropeço de Flávio Bolsonaro', episódio descrito como uma 'novela mexicana' envolvendo o senador. Com a nova percepção, parte desses executivos passou a buscar informações sobre como seria um eventual quarto mandato do petista, ainda que, nas palavras da coluna, 'muito contrariados'. A expectativa em torno de nomes de terceira via, como o governador de Goiás Ronaldo Caiado, teria perdido força no mesmo grupo.
Veículos de esquerda destacaram esse ponto como sinal de favoritismo consolidado: mesmo a elite financeira, historicamente resistente ao Partido dos Trabalhadores, estaria se rendendo ao quadro apontado pelas pesquisas, enquanto o projeto de poder do bolsonarismo daria sinais de esgotamento. A cobertura de centro, por sua vez, relatou os mesmos fatos com mais cautela, lembrando que a própria coluna pondera que 'falta muito chão ainda' e que a campanha pode ter viradas até outubro. Nesse enquadramento, a mudança de postura da Faria Lima não representa adesão política a Lula, e sim uma adaptação de expectativas ao cenário percebido.
O segundo capítulo é jurídico. A Polícia Federal concluiu que Flávio Bolsonaro cometeu o crime de calúnia contra Lula em uma postagem de 3 de janeiro de 2026, na qual associou imagens do presidente ao venezuelano Nicolás Maduro e fez imputações de crimes. O relatório foi enviado ao Supremo Tribunal Federal e, conforme o trâmite, deve seguir do gabinete do ministro Alexandre de Moraes para a Procuradoria-Geral da República. A PGR terá três caminhos: pedir novas diligências, arquivar o caso ou apresentar denúncia. Apenas se houver denúncia aceita pelo STF é que seria aberta uma ação penal.
Nesse ponto, a leitura dos lados diverge no acento, não nos fatos. A cobertura de centro foi enfática ao explicar que a conclusão da PF é somente o encerramento da fase de investigação e que Flávio ainda não é réu, com direito a defesa e contraditório preservados. É uma perspectiva que veículos de direita tendem a reforçar, enfatizando a presunção de inocência e observando que o caso tramita sob relatoria de Moraes, alvo recorrente de críticas do campo conservador por concentração de poder. Já a ênfase atribuída pela esquerda recai sobre a responsabilização: a conclusão policial seria um marco no combate à desinformação atribuída ao entorno bolsonarista.
O que ainda não se sabe é decisivo. Não há números públicos das pesquisas que embasam a nova leitura do mercado, nem detalhamento do episódio que teria desgastado o senador. No campo jurídico, restam em aberto a decisão da PGR sobre denunciar ou não, o eventual aceite do STF e a manifestação da defesa de Flávio Bolsonaro, até aqui ausente do noticiário. São essas variáveis que vão definir se o atual quadro de favoritismo e os passos da investigação se confirmam ou mudam de rumo nos próximos meses.