O empresário Renan Santos foi oficializado no sábado (1º) como candidato do partido Missão à Presidência da República, em congresso realizado em um centro de convenções na Mooca, zona leste de São Paulo. No discurso, atacou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro, disse que os dois deveriam ir para a lata de lixo da história e, ao tratar de segurança pública, afirmou que um eventual governo seu vai matar quem roubar. A chapa tem como vice o tenente-coronel da reserva Aroldo Medina, ex-integrante da Brigada Militar do Rio Grande do Sul.
A cobertura de centro relatou o ato em detalhe factual. O partido, criado em 2025 por integrantes do Movimento Brasil Livre e aprovado pelo tribunal eleitoral no fim daquele ano, disputa sua primeira eleição. As formalidades jurídicas da convenção já haviam sido cumpridas em 20 de julho, antecipação decidida para garantir escolta da Polícia Federal depois de o candidato relatar ameaças atribuídas a facções criminosas. No congresso foram apresentados o Livro Amarelo, documento de mais de 500 páginas com o programa de governo, e candidatos ao governo de nove estados.
As propostas convergem em todas as coberturas. Na economia, o programa prevê uma emenda de transição para desindexar benefícios previdenciários e assistenciais do salário mínimo e desvincular os pisos constitucionais de saúde e educação, com economia estimada em R$ 1,1 trilhão até 2031, além da fusão de municípios financeiramente inviáveis, reduzindo o total de 5.570 para cerca de 1.656 cidades. Na segurança, o texto propõe a adoção do chamado Direito Penal do Inimigo, superpresídios para lideranças criminosas e confisco de bens de integrantes de facções. Entre as metas anunciadas estão reduzir os homicídios a menos de 10 mil por ano, juros abaixo de 6%, superávit nominal nas contas públicas, retirar 8 milhões de pessoas de favelas e alfabetizar nove em cada dez crianças. O deputado da legenda detalhou ainda que o pagamento de auxílios ficaria condicionado à aceitação de postos de trabalho.
A divergência de enquadramento é nítida. Veículos de esquerda organizaram a cobertura em torno da inconstitucionalidade da promessa central: a pena de morte para crimes comuns é vedada pela Constituição e integra cláusula pétrea, de modo que a frase sobre matar quem roubar não poderia ser instituída nem por emenda. Essa cobertura destacou também os insultos pessoais, entre eles um termo capacitista dirigido ao senador rival, o preço dos ingressos, de R$ 94 a R$ 7 mil, e classificou o discurso como beligerante, deixando de fora o conteúdo programático apresentado no mesmo evento.
Veículos de direita enfatizaram o posicionamento do candidato contra a polarização, reproduzindo com espaço a tese de que o lulismo e a família Bolsonaro seriam duas faces da mesma moeda por gerarem danos semelhantes ao futuro do país, além das bandeiras de desindexação, desvinculação e reformas de competitividade e da trajetória empresarial apresentada como credencial de gestão. Nessa cobertura, a promessa sobre matar quem roubar e os xingamentos ficaram ausentes, substituídos pelo debate sobre reformas estruturais e pela proposta de desfavelização em parceria com a iniciativa privada.
A cobertura de centro registrou ainda o que os dois lados omitiram. Questionado em coletiva, o candidato relativizou a frase, afirmando que o foco é o combate à impunidade e o uso de legítima defesa pelas forças policiais, e negou a intenção de extinguir o Bolsa Família no curto prazo, dizendo que quem não tem condições de sustentar a própria família continuará amparado. Também foi contextualizada a distância entre a meta de 10 mil homicídios anuais e as 40.775 mortes violentas registradas no país em 2025. No plano financeiro, a legenda receberá cerca de R$ 3,3 milhões do fundo eleitoral, equivalente a 0,07% do total, não terá propaganda gratuita em rádio e TV e se apoia em vaquinha virtual, venda de ingressos e doações, com R$ 898,4 mil arrecadados de 15,6 mil doadores pelo próprio candidato.
O que ainda não se sabe é como a promessa de matar quem roubar se traduziria em política pública diante da vedação constitucional, e qual é o tamanho real da candidatura: as pesquisas citadas divergem, com um instituto apontando 3% das intenções de voto em julho e outro registrando 7,8% e terceiro lugar na corrida.